Os Mortos de Sobrecasaca

"Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis, alto de muitos metros e velho de infinitos minutos, em que todos se debruçavam na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca. Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos. Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava, que rebentava daquelas páginas."

Carlos Drummond de Andrade, Os Mortos de Sobrecasaca (Sentimento do mundo, 1940)

domingo, 10 de abril de 2016

A Herança do Conde


"Em nome de Deus, Amen..." 
Retrato de Manuel Joaquim Alves Machado,
Conde de Alves Machado, anterior a 1890.
A história desta vez começa assim! Não, não vou falar de Deus, nem tão pouco de religião. Vou sim falar de um homem profundamente católico, monárquico convicto e possuidor de uma das maiores fortunas do seu tempo. Esta frase inicial é forma como começam os vários testamentos que ele fez, quatro ao todo. Tudo isto para ditar as últimas vontades para uma controversa herança. A Herança do Conde!

Conde de Alves Machado... Era este o título com que foi agraciado Manuel Joaquim Alves Machado, um homem rico, que nem sempre o foi. Mas para contar melhor esta história temos de recuar no tempo quase 200 anos.

Vamos lá então...

Num lugar escondido entre as agrestes serranias dos limites das Terras de Basto fica um pequeno lugar chamado Cabriz, pertencente à freguesia de Cerva, em Ribeira de Pena. Neste lugar isolado, no fundo de um vale pedregoso nasceu Manuel Joaquim a 4 de fevereiro de 1822, curiosamente 7 meses antes do Grito do Ipiranga que levou à independência de um país que se tornou parte da sua vida, o Brasil.

Foi no seio de uma família numerosa e remediada de lavradores que cresceu o futuro conde. Era filho de Bernardo José Alves e Cepriana Rosa Moura, pais de mais 7 filhos, 4 rapazes e 3 raparigas. Eram eles José Bernardino, António José, Casimiro José e Albino José, e elas Miquelina, Delfina e Maria.

Naquele tempo, como era normal nas famílias numerosas, emigravam! Iam muito, muito novos, tal como foi Manuel Joaquim em 1834. Com apenas 12 anos cruzou o oceano Atlântico rumo ao Brasil já independente. A bordo daquele barco, após uma viagem de quase dois meses, ele e muitos outros jovens com a cabeça cheia de sonhos e medos, avistaram ao longe a baía de Guanabara, na cidade maravilhosa do Rio de Janeiro.

Vista do Rio de Janeiro, Brasil, c. 1885.
Fotografia de Marc Ferrez, Coleção Gilberto Ferrez, Acervo Instituto Moreira Salles.
Rua do Ouvidor, Rio de Janeiro, Brasil, c. 1890.
Fotografia de Marc Ferrez, Coleção Gilberto Ferrez,
Acervo Instituto Moreira Salles.
Como era costume havia alguém no porto de chegada à espera daquelas crianças feitas adultos à força! Manuel Joaquim tinha um tio no Rio de Janeiro que, para não fugir à normalidade destas situações, o encaminhou na "vida comercial" numa mercearia da mais famosa e cosmopolita rua da cidade, a Rua do Ouvidor. Começou como marçano, depois caixeiro e por aí fora, sempre a subir, até ao topo, ao lugar que todos desejavam, o de patrão e capitalista! Bem, teve uma ajudinha, pode-se dizer que ao muito trabalho que deve ter feito se juntou muita sorte e olho para o negócio, tanto é que o seu patrão passados alguns anos o fez sócio da empresa e quando morreu deixou-lhe todas as suas quotas na sociedade.

Foi sempre a subir e dinheiro a entrar... Dinheiro, muito dinheiro, casas, fazendas, muitas fazendas! Juntou uma fortuna colossal chegando a ser o segundo acionista do Banco do Brasil.

D. Pedro II, Imperador do Brasil, c. de 1845/1850.
Daguerreótipo pertencente ao acervo do Museu
Histórico Nacional, Rio de Janeiro, Brasil.
Não sei se foi na Rua do Ouvidor que viu pela primeira vez D. Pedro II, o Imperador do Brasil, aliás frequentador das lojas e cafés chics daquela artéria burguesa, mas o certo é que chegou até ele e tornou-se um dos seus grandes amigos. Bem, afinal D. Pedro era especial, talvez um "imperador-burguês" que gostava de todas as modas e novidades do século e Manuel Joaquim era um verdadeiro capitalista, que subiu na vida a pulso e conquistou um lugar no topo da sociedade brasileira da época que, indissociavelmente estava ligada à corte imperial.

Manuel Joaquim com D. Pedro partilhava os ideais abolicionistas, sendo um dos primeiros fazendeiros a libertar escravos, muito antes da famosa Lei Áurea, assinada pela regente princesa Isabel a 13 de maio de 1888 que acabou com a escravidão no Brasil. A sua "nobreza" e prestigio levou a que o seu amigo imperador o condecorasse com a comenda das Ordens de Cristo e da Rosa.

Mas falemos do lado mais privado da vida de Manuel Joaquim Alves Machado...

Excerto do 2º testamento de Manuel Joaquim Alves Machado, datado de 1875,
no qual deixa 10 contos de réis a Amélia Alves Machado e marido José António
Machado e Moura, aos quais chama "compadres", e outros 10 contos de réis aos
filhos do casal.
Rio de Janeiro, dia 26 de abril de 1855... D. Maria de Jesus Almeida, solteira, dá à luz uma menina à qual chamou Amélia. Essa menina foi criada por Manuel Joaquim, segundo ele como "filha"... Uns anos mais tarde, no Porto, em 1862, nasceu Manuel, que também foi criado como "filho"... Bem, segundo descendentes de Amélia, Alves Machado de apelido, eram filhos dele e as evidências assim o apontam! O que é certo é que em 1870 Manuel Joaquim faz o seu primeiro testamento e grande parte dele fala destas duas crianças "criadas como filhos", às quais tinha "afeição como pai" assegurando o seu futuro financeiramente, assim como o da mãe deles, ao mesmo tempo que também deixa quantias em dinheiro a outra mulher de nome D. Antónia Bernarda Dolores Rodrigues, que mais tarde será mãe de outra sua filha ilegítima.

Na verdade nunca casou nem assumiu algum relacionamento ou filhos desses relacionamentos! Mas sempre os contemplou quer no primeiro, quer nos dois testamentos que o seguiram, apesar de deixar bem claro que "nunca tivera filhos". Esta afirmação será o seu maior problema no final da vida!

Amélia Alves Machado, sua "filha", casou com um grande amigo seu chamado José António Machado e Moura, natural do lugar de Asnela, em Cerva, Ribeira de Pena. Quando vieram para Portugal moraram numa quinta do séc. XVIII na freguesia de Atei, em Mondim de Basto, chamada Quinta da Dónega, que também ficou conhecida por "Casa dos Machados", segundo Eduardo Teixeira Lopes, comprada por Manuel Joaquim Alves Machado à família Teixeira Coelho, da Casa do Outeiro, em Veade, Celorico de Basto. E desta união nasceram seis filhos, dois rapazes e quatro raparigas. Eles chamados Pedro e Paulo Machado e Moura e elas chamadas Maria Engrácia, Orminda, Cristina e Laura Machado e Moura. Estes "netos" foram também contemplados em dois dos testamentos, em 1875 e 1890.

Casa da Quinta da Dónega ou d'Ónega, também chamada de Casa dos Machados, em Atei, Mondim de Basto.
Esta casa terá pertencido a Bento Teixeira Álvares, fidalgo da Casa Real e Capitão-mor de Celorico de Basto, como mostra a obrigação da sua Capela de Nossa Senhora da Boa Morte, de 1727. Após ter passado de geração em geração a família terá vendido o solar ao Conde Alves Machado, no último quartel do séc. XIX (LOPES, Eduardo Teixeira de, Mondim de Basto (Memórias Históricas), Mondim de Basto, 2000).
Hotel Francfort, postal ilustrado.
Este hotel foi demolido em 1917 para dar
espaço para a construção da Avenida dos
Aliados.

Em 1873, após uma viagem pela Europa, Manuel Joaquim decide regressar de vez a Portugal. Escolhe como sua morada o Porto e hospeda-se no famoso Hotel Francfort. Famoso na altura e bastante concorrido pelas várias celebridades, entre as quais as cantoras líricas que vinham atuar ao então Real Teatro de São João. O caricato da situação é que dinheiro não faltava para comprar um palácio ou mandar construir, além disso viria a ter um em Lisboa, herdado de seu irmão José Bernardino. Apesar de tudo quis viver num hotel, que se tornou morada permanente durante mais de 40 anos, até à sua morte.

Palácio Alves Machado, Rua do Salitre nº 66,
Lisboa. Este palácio mandado construir por
José Bernardino Alves Machado, em 1875,
 em terrenos comprados ao médico Adriano
Salgueiro encontra-se ricamente decorado por
pinturas murais com temáticas exóticas executadas
 pelo pintor Pereira Cão, mandadas fazer por Alves
Machado. O Conde de Alves Machado, que o havia
herdado de seu irmão, vende-o em 1899 por
35 contos de réis ao "brasileiro" Conselheiro
Joaquim José Cerqueira. Aqui esteve instalada,
até à pouco tempo, a sede da Fundação Oriente.
A 15 de abril de 1879, passa a fazer parte do rol da nova aristocracia, quando o rei D. Luís I concede-lhe o título de Visconde de Alves Machado. Anos mais tarde, noutro reinado, o de D. Carlos I, a 18 de junho de 1896, é lhe dado o título de Conde de Alves Machado.

António Maria de Fontes Pereira de Melo, 1883.
Um dos principais e mais influentes políticos portugueses
 da segunda metade do séc. XIX, responsável por uma
verdadeira revolução nas obras públicas, transportes e
comunicações, nomeadamente o início da construção
 dos caminhos de ferro em Portugal.
O conde passa também a participar ativamente na vida política portuguesa ao filar-se no partido Regenerador, aliás tornou-se presidente do partido na cidade do Porto. As suas amizades não podiam ser do mais alto nível... Era um grande amigo do famoso ministro Fontes Pereira de Melo. Tanto em Portugal, como no Brasil era muito bem relacionado. Chega até a publicar um livro, em 1879, sobre um famoso político e dos mais influentes do Brasil imperial, seu amigo pessoal, o senador Zacarias de Góis e Vasconcellos, aliás também contemplado nos seus testamentos, assim como uma filha que este seu amigo teve antes do casamento, chamada Emília Carolina dos Santos.

Homem de caráter e bastante generoso, apesar da distância nunca esqueceu a sua amizade com D. Pedro II, aliás segundo consta terá servido de cicerone ao seu amigo numa das suas visitas ao Porto e mais importante ainda, foi o seu amparo financeiro após ao seu exílio forçado com a proclamação da República no Brasil, a 15 de novembro de 1889.

D. Pedro II no exílio com a sua filha
a princesa Isabel e o neto, D. Pedro de Alcântara,
Príncipe do Grão-Pará, Cannes, França, 1891.
Acervo D. João de Orleans e Bragança, Instituto
Moreira Salles, Brasil.
D. Pedro II no seu leito de morte, em Paris, França, 1891.
Acervo D. João de Orleans e Bragança, Instituto Moreira Salles, Brasil.
Foram tempos terríveis para a família imperial brasileira... Quando os exilados desembarcaram em Portugal, o recém rei D. Carlos, sobrinho-neto do imperador, colocou à disposição de toda a família imperial um palácio e uma renda mensal. Mas o tio imperador recusou! Não queria ser um fardo, nem ser sustentado daquela forma. Orgulhoso e de cabeça erguida hospedou-se no Hotel Bragança. Mas o orgulho de nada lhe valeu, o seu amigo Conde de Alves Machado teve de pagar a conta do hotel, pois o imperador não tinha dinheiro... Partiu com "uma mão à frente e outra atrás" do seu querido Brasil! Mas como um mal nunca vem só, ao chegarem ao Porto, a imperatriz D. Teresa Cristina Maria morreu. Mais uma vez o conde não hesitou! Escreveu ao Visconde de Ouro Preto dizendo "...ponho à disposição de Sua Magestade todos os meus haveres, todos ilimitadamente (...) e que nos funerais da imperatriz não se olhe a despesas...". D. Pedro II não teve outra alternativa! Pediu 20 contos de réis emprestados ao seu amigo para o funeral da mulher. O imperador, desolado partiu para Paris e hospedou-se num modesto hotel e, novamente, não aceitou a ajuda da família, neste caso da sua filha, a princesa Isabel, que foi morar na propriedade herdada pelo seu marido, o Conde d'Eu, que era nada mais que o faustoso Castelo d'Eu, na Normandia, em França. E voltou a ter de pedir mais 20 contos de réis ao amigo... A 5 de dezembro de 1891 morre, praticamente sozinho num simples quarto de hotel, o último Imperador do Brasil. Apesar da sua triste morte teve um funeral que pôs de boca aberta todos os republicanos brasileiros... Chefes de Estado, cabeças coroadas e milhares de pessoas encheram as ruas de Paris para dizer o seu último adeus a um homem extraordinário. A viagem seguiu para Lisboa, para o Panteão dos Braganças, no Mosteiro de São Vicente de Fora, onde o corpo foi sepultado. O imperador levava um saquinho de areia da praia de Copacabana no bolso...

Mas o conde, profundamente monárquico, também teve sempre uma atenção especial com a família real portuguesa. Para além da sua amizade, contaram também, especialmente também, com o seu apoio financeiro! Nas memórias do 6º Marquês de Lavradio consta que o conde colocou, por ocasião de uma viagem do rei D. Carlos a Londres, 10 000 libras à sua disposição, numa altura em que a Casa Real era constantemente contestada devido aos enormes gastos que contrastavam com um país mergulhado numa enorme crise financeira. Mas isso para o conde não interessava! "Dêem a Sua Majestade o que ele quiser!", foram as ordens do conde aos seus banqueiros em Londres, caso D. Carlos precisasse de mais dinheiro.
Casamento do rei D. Manuel II com a princesa alemã D. Augusta Victória Von
Hohenzollern-Sigmaringen, 4 de setembro de 1913, Castelo de Sigmaringen,
na Alemanha. D. Manuel, exilado e proibido de voltar ao seu país,
fez questão de casar sobre um caixote cheio de terra trazida de Portugal.

Mesmo quando Portugal já era uma república, o conde nunca se esqueceu do seu rei! Em 1913, estando D. Manuel II no exílio, manda-lhe 500 libras... Do Castelo de Sigmaringen, na Alemanha, o rei escreve-lhe a agradecer o seu gesto. O dinheiro seria para o casamento de D. Manuel com a princesa D. Augusta Victória ou para pagar as muitas dívidas que D. Manuel contraía ao comprar compulsivamente tantos livros? Uma incógnita! As muitas dívidas com a compra de livros do rei D. Manuel só ficaram saldadas após a sua morte... Salazar pagou-as.

Mas vamos retornar à vida mais privada do Conde de Alves Machado.

Registo de óbito de Amélia Alves Machado.
In Arquivo Distrital de Vila Real, Registos Paroquiais,
Concelho de Mondim de Basto, Freguesia de Atei, Óbitos 1874-1894.
A 11 de janeiro de 1891 morre a "filha" Amélia Alves Machado, muito jovem de 35 anos, na sua Quinta da Dónega, em Atei, sendo sepultada na capela da casa. O conde perde uma "filha" mas já tinha outra... Maria Celestina Alves Machado. Começa aqui outro capítulo do enredo de uma verdadeira novela Camiliana!

Maria Celestina havia nascido a 24 de janeiro de 1885, na cidade do Porto. Era filha natural da já falada D. Antónia Bernarda Dolores Rodrigues, portuguesa nascida a 14 de agosto de 1843. Esta senhora conheceu o conde, que na altura ainda não o era, por ocasião de uma viagem que este fez a Portugal e terá mantido com ele um relacionamento que durou anos... Para variar, o conde nunca reconheceu nada! Parece que família não era com ele. Maria Celestina seria fruto dessa relação bastante conturbada e tensa.

D. Antónia Rodrigues, na ânsia de estar junto do seu amor, manda construir uma casa muito próxima do palacete que o conde havia mandado construir, em 1898, na Praça da República, antigo Campo da Regeneração, no Porto. A expectativa de proximidade saiu gorada! Este palacete nunca será habitado por ele. Em vez de o ocupar assim que esteve pronto, em 1902, emprestou-o a um grande amigo seu banqueiro chamado Joaquim Pinto da Fonseca, filho de um dos fundadores do Banco Fonsecas, Santos & Vianna, que numa fusão com o Banco Burnay deu origem ao Banco Fonsecas & Burnay. O conde sempre preferiu morar no Hotel Francfort e ser "livre como um passarinho"!

Palacete Alves Machado, Praça da República nº 75, Porto, 1958.
O Conde de Alves Machado comprou o terreno a 8 de julho de 1896, sendo solicitada a licença para a construção a 18 de julho de 1898. O projeto é do Eng. Estêvão Torres e o mestre de obras foi José Joaquim Mendes.
Neste palacete funcionou de 1975 a 2004 o Instituto Francês. A 8 de abril de 2008 sofreu um violento incêndio que destruiu totalmente os seus ricos interiores, ficando apenas as fachadas de pé. Atualmente ainda está em ruínas!
Fotografia de Teófilo Rego in Arquivo Municipal do Porto.

Maria Celestina Alves Machado, séc. XX, início.
In Geneall.net.
Maria Celestina cresce e apesar da desaprovação do "pai" resolve casar com o juiz e escritor José Júlio Gonçalves Coelho, um homem muito mais velho do que ela. O conde teimoso proíbe o casamento, mas não adianta! Furioso deserda-a! Maria Celestina já não constará do próximo testamento feito em 1904. Começa aqui a batalha pela herança!

Maria Celestina não se conforma com a decisão do "pai" e na tentativa de pela lei contrariar a situação resolve intentar em tribunal uma ação de investigação de paternidade ilegítima. Foi o fim da sua relação "pai e filha". O conde ficou furioso, afinal se quisesse reconhecê-la tinha o feito, mas nunca o fez, sempre o negou oficialmente. Esta ação em tribunal viria a arrastar-se por 10 anos! Sim, 10 anos! Já na altura a justiça também era lenta, muito lenta.

Mas o caricato da situação não ficou por aqui... O conde resolveu "mexer os cordelinhos" para seu favor e subornou o Juiz do Supremo Tribunal de Justiça com 50 000 escudos e jóias para a Palmira, a amante do juiz. A situação foi descoberta e exposta na imprensa! O desfecho foi a favor de Maria Celestina que se viu reconhecida finalmente como filha através do Supremo Tribunal de Justiça a 17 de dezembro de 1912.

A princesa Isabel e o marido, o Conde d'Eu, rodeados por filhos e netos,
Castelo d'Eu, Normandia, França, 1918.
Fotografia de P. Gavelle,  acervo D. João de Orleans e Bragança,
 Instituto Moreira Salles, Brasil.
Entretanto, o conde resolveu deixar toda a sua fortuna que tinha no Brasil, que incluíam várias fazendas e outros imóveis à filha do seu grande amigo e já falecido, o imperador D. Pedro II. A princesa Isabel foi reconhecida por ele como a única e universal herdeira! Mas como a lei no Brasil, ao contrário da portuguesa, não permitia a investigação de paternidade ilegítima e para impedir que Maria Celestina contrariasse a sua vontade, o já velhinho conde, com 91 anos, viaja para o Brasil em 1913 para se naturalizar brasileiro. Só assim como verdadeiro cidadão brasileiro poderia impedir pela lei que os seus bens fossem parar à mão de Maria Celestina. O conde passou assim a possuir a dupla nacionalidade.

Notícia da morte de Manuel Joaquim Alves Machado, Conde de Alves Machado.
In Ilustração Portuguesa, 2ª Série, nº 479, Lisboa, 26 de abril de 1915.
A batalha para o Conde de Alves Machado acabou a 4 de abril de 1915, quando morre no Hotel Francfort com 93 anos. Os seus últimos anos foram marcados por lutas familiares e judiciais que tanta amargura e desilusão lhe trouxeram.

Mas para Maria Celestina a batalha ainda não tinha acabado...

Para impedir que a princesa Isabel herdasse a fortuna calculada em 1200 contos de réis, a 4 de agosto de 1915 entra na secretaria do Supremo Tribunal de Justiça do Brasil um pedido de homologação de sentença vinda de Portugal. A tal que reconhecia Maria Celestina Alves Machado filha natural do Conde de Alves Machado. Mas o Conselheiro Silva Costa, advogado da princesa Isabel impugna a homologação de sentença.
Notícia do jornal brasileiro A Rua, 6 de setembro de 1915.
In Biblioteca Nacional Digital, Brasil.
A luta judicial dura por mais 6 anos...

A 6 de março de 1921 é noticiado no Correio da Manhã brasileiro, que o Conde d'Eu, marido da princesa Isabel, que estaria no Brasil devido à transladação dos restos mortais dos imperadores D. Pedro II e D. Teresa Cristina Maria, chegou finalmente a acordo com Maria Celestina Alves Machado. O acordo entre a princesa Isabel e o marido, com a filha do Conde de Alves Machado estabelecia que esta receberia a quantia que lhe cabia por lei enquanto herdeira, ou seja, cerca de 807 contos, parte em dinheiro, parte em ações do Banco do Brasil.

Chegou desta forma ao fim a longa novela, bem ao gosto brasileiro e português...

O conde, esse perdurou na memória. Desde pequeno que o meu pai me conta uma estória, que também o pai dele lhe contou. Um conde vindo de Cabriz, um dia mandou chamar um carpinteiro para lhe arranjar a bengala. Estava muito alta, achava ele! E o carpinteiro cortou-a, naturalmente por baixo, para não danificar o topo, o castão. O conde mandou chamar novamente o carpinteiro. Afinal ele fez mal em cortar por baixo... Disse-lhe o conde, muito irritado - "A bengala estava muito alta na parte de cima e não na de baixo! ".

Jazigo do Conde de Alves Machado, nº 499, 7ª secção,
Cemitério de Agramonte, Porto.
Este jazigo da autoria de António Almeida da Costa
& C., cujo terreno foi comprado a 18 de outubro
de 1894, já é referido no 4º testamento de 1904,
 como sendo um desejo do conde ser aqui sepultado,
deixando 10 inscrições à Santa Casa da Misericórdia
 do Porto com a condição de mandar rezar por ele
 uma missa anual perpétuamente, no aniversário do seu
falecimento, e de cuidar do seu jazigo.

Pelo menos este desejo foi cumprido...

Fotografia da autoria de Francisco Queiroz que, 
gentilmente a cedeu para publicar neste blogue.
Esta estória, naturalmente muito adulterada pelo tempo, à primeira vista poderá levar-nos a pensar que terá sido uma pessoa pouco inteligente, mas não, mostra sim, a sua forte personalidade, cuja teimosia e persistência delinearam o rumo da sua vida. Pensava ele que os seus desejos seriam uma ordem ou uma certeza absoluta, que poderia contrariar o óbvio, mas não, afinal o dinheiro não compra tudo. Com ele veio a desilusão e a cobiça a uma herança maldita que nem a invocação divina testamental a salvou... "Em nome de Deus, Amen..."
Manuel Joaquim Alves Machado,
Visconde e Conde de Alves Machado.
In Geneall.net























Um agradecimento especial,
pela sua amabilidade e disponibilidade, ao historiador de arte Francisco Queiroz, um dos maiores especialistas portugueses em arte funerária Romântica. www.queirozportela.com

9 comentários:

  1. Lindo. Encontrei nesta bela descrição algumas " parecenças " com a vida do tb. brasileiro e comendador Francisco António Pires, do Felgar. Está de parabéns o autor. Aguardo por mais estórias.

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    1. Muito obrigado! Mais estórias virão, é só aguardar...

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  2. Gostei da narrativa! O facto de não reconhecer os seus filhos faz com que não demonstre valores significativos, para além dos económicos!...Falta de caráter!

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  3. Un abrazo de un bisnieto de D.Joaquin.... desde España.

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  4. Gostei,o meu nome e Alvaro Miguel Machado.Neto de Manuel Alves Machado.

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  5. História interessante e muito triste, estava pesquisando a respeito do sobrenome, Alves Machado , mas não esclareceu muito, porém foi bom o conhecimento.

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